{"id":1340,"date":"2013-03-23T01:00:21","date_gmt":"2013-03-23T04:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/devkico.itexto.com.br\/?p=1340"},"modified":"2013-03-23T01:00:21","modified_gmt":"2013-03-23T04:00:21","slug":"quando-o-diagrama-te-emburrece-involucao-linguistica-por-uml-em-excesso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/devkico.itexto.com.br\/?p=1340","title":{"rendered":"Quando o diagrama te emburrece: involu\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica por UML em excesso"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/devkico.itexto.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/burro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1341\" style=\"margin: 5px;\" title=\"burro\" src=\"https:\/\/devkico.itexto.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/burro-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"160\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/devkico.itexto.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/burro-200x300.jpg 200w, https:\/\/devkico.itexto.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/burro.jpg 205w\" sizes=\"(max-width: 160px) 100vw, 160px\" \/><\/a>A humanidade levou mil\u00eanios para aperfei\u00e7oar a arte de transmiss\u00e3o do conhecimento. Infelizmente muitos preferem uma vis\u00e3o &#8220;retr\u00f4&#8221;. Neste post pretendo discutir uma id\u00e9ia que passeia na minha cabe\u00e7a a um bom tempo: o efeito negativo do excesso de conte\u00fado gr\u00e1fico pode causar em uma equipe de desenvolvimento. Vou al\u00e9m: como vou mostrar neste post, acredito que chegue a causar dem\u00eancia. \u00c9 a velha quest\u00e3o do determinismo lingu\u00edstico que me assombra de novo. :)<\/p>\n<h2>O problema<\/h2>\n<p>Pra variar o problema est\u00e1 no uso inadequado da ferramenta: o conte\u00fado visual na documenta\u00e7\u00e3o que normalmente aparece sob a forma de UML. Vi o problema se manifestar de forma concreta em uma equipe em que atuei. No caso, acredito que o problema tenha sido decorrente de um certo deslumbramento com a ferramenta usada: o <a href=\"http:\/\/www.sparxsystems.com.au\/\">Enterprise Architect<\/a> da Sparx Systems (que diga-se de passagem \u00e9 fant\u00e1stico). <strong>Toda documenta\u00e7\u00e3o gerada era composta apenas por diagramas UML<\/strong>.<\/p>\n<p>Neste caso via-se claramente uma invers\u00e3o: o conte\u00fado imag\u00e9tico que deveria ser um acess\u00f3rio ao texto era o foco e o texto passara a ser um mero acess\u00f3rio. Sei que soa absurdo e n\u00edtidamente \u00e9 um caso extremo por\u00e9m antes de rotular estes profissionais \u00e9 fundamental tratarmos aqui de algumas fal\u00e1cias que podem levar a esta situa\u00e7\u00e3o para, mais \u00e0 frente, entender os danos que este tipo de situa\u00e7\u00e3o gera.<\/p>\n<h3>&#8220;Uma imagem vale mais que mil palavras&#8221; &#8211; Ouch!<\/h3>\n<p>Esta \u00e9 a primeira fal\u00e1cia e acredito que tenha seu fundamento no desespero em se obter a m\u00e1xima produtividade da equipe. Convenhamos, escrever <strong>\u00e9<\/strong> dif\u00edcil e sempre ser\u00e1: n\u00e3o h\u00e1 como fugir. Para come\u00e7ar quem escreve precisa\u00a0<strong>conhecer<\/strong> o objeto a ser descrito. Infelizmente n\u00e3o h\u00e1 conhecimento imediato: ao toparmos com um novo objeto o processo que gera o saber \u00e9 lento: voc\u00ea precisa interagir com a coisa, dissec\u00e1-la, estud\u00e1-la. E este \u00e9 apenas o primeiro passo.<\/p>\n<p>O segundo passo \u00e9 tentar externalizar este conhecimento. Aparecem pela primeira vez representa\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas do objeto sob a forma de desenhos, diagramas, esbo\u00e7os, grunhidos ou seja l\u00e1 o que voc\u00ea gostar. O interessante destes esbo\u00e7os \u00e9 que normalmente representam apenas o nosso conhecimento instintivo: a impress\u00e3o sens\u00edvel que temos daquilo que tentamos abra\u00e7ar. Sabe quando o conhecimento realmente surge? Quando conseguimos conceituar o objeto, ou seja, no momento em que \u00e9 poss\u00edvel verbalmente gerar uma descri\u00e7\u00e3o sucinta e precisa: o\u00a0<strong>conceito<\/strong>. Sem excessos ou faltas:o essencial. O conceito captura a ess\u00eancia da coisa. E todo conceito \u00e9 verbal: n\u00e3o existe conceito representado de forma pict\u00f3rica.<\/p>\n<p>S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel garantir o conhecimento de algu\u00e9m sobre determinado assunto quando esta pessoa consegue descrev\u00ea-lo de forma intelig\u00edvel e sucinta verbalmente. Isto fica muito claro no exemplo a seguir. Observe a imagem abaixo que cont\u00e9m duas defini\u00e7\u00f5es de um tri\u00e2ngulo: a primeira de forma pict\u00f3rica e a segunda conceitual.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/devkico.itexto.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/triangulo.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-1342\" title=\"triangulo\" src=\"https:\/\/devkico.itexto.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/triangulo-300x180.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"180\" srcset=\"https:\/\/devkico.itexto.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/triangulo-300x180.png 300w, https:\/\/devkico.itexto.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/triangulo.png 400w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A representa\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica sempre \u00e9 um processo baseado no ato de apontar. Te mostro uma imagem e digo: &#8220;esta imagem \u00e9 uma ocorr\u00eancia deste tipo de coisa&#8221;. N\u00e3o h\u00e1 conceito sendo formado, apenas mostro um exemplo. Al\u00e9m disto a imagem sempre \u00e9 interpretativa. Levando a interpreta\u00e7\u00e3o de um tri\u00e2ngulo do ponto de vista apenas imag\u00e9tico, eu poderia pensar que todo tri\u00e2ngulo possu\u00ed a ponta superior com uma pequena deforma\u00e7\u00e3o, tal como desenhei. \u00c9 uma interpreta\u00e7\u00e3o est\u00fapida por\u00e9m totalmente v\u00e1lida neste contexto.<\/p>\n<p>J\u00e1 o conceito n\u00e3o: define exatamente o que \u00e9 o objeto e n\u00e3o abre espa\u00e7o para novas interpreta\u00e7\u00f5es. Se nunca tiver visto um tri\u00e2ngulo na vida mas tiver internalizado sua descri\u00e7\u00e3o sou capaz de identific\u00e1-lo na hora independente da forma como este se manifesta. Outro detahe: o conceito \u00e9 curto.<\/p>\n<p>Se uma imagem vale mais que mil palavras ela n\u00e3o pode representar um conceito pelo fato de possuir informa\u00e7\u00e3o em excesso. Isto aniquila a primeira fal\u00e1cia. Dado que o papel do analista de requisitos \u00e9 descrever o que deve ser implementado da forma mais precisa poss\u00edvel a imagem jamais pode ser o foco.<\/p>\n<h3>&#8220;Diagramas s\u00e3o mais f\u00e1ceis de entender que o texto&#8221; &#8211; Uh!<\/h3>\n<p>J\u00e1 sabemos o que \u00e9 um conceito. Se o diagrama for mais f\u00e1cil de entender que o texto, de duas uma: ou quem recebeu a especifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o gosta MESMO de ler ou n\u00e3o h\u00e1 qualidade no texto recebido. Conceitos por defini\u00e7\u00e3o s\u00e3o simples, f\u00e1ceis de serem entendidos. E se n\u00e3o forem f\u00e1ceis de entender isoladamente devem possuir ao menos uma estrutura ao redor que ajude o leitor a entend\u00ea-lo. Ei: esta estrutura <strong>auxiliar<\/strong> pode vir na forma de imagens como diagramas. Repare: s\u00e3o estruturas auxiliares e n\u00e3o centrais.<\/p>\n<p>Quando o assunto a ser tratado \u00e9 bem descrito e o leitor encontra-se interessado no assunto a leitura sempre \u00e9 prazerosa. Al\u00e9m disto entra em cena tamb\u00e9m a responsabilidade e maturidade do desenvolvedor. Documenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 ruim? Consulte o analista de requisitos. Continua ruim? Suba a bola pro superior hierarquico, procure seus colegas, se vire. O que n\u00e3o pode ocorrer \u00e9 voc\u00ea irrespons\u00e1velmente implementar aquilo que n\u00e3o conhece.<\/p>\n<h3>&#8220;Mas o analista de requisitos \u00e9 muito mais produtivo gerando diagramas&#8221; &#8211; Ai ai ai!<\/h3>\n<p>J\u00e1 sabemos que a boa documenta\u00e7\u00e3o gera bons conceitos que s\u00e3o por defini\u00e7\u00e3o um produto verbal. Dado que produtividade implica na produ\u00e7\u00e3o de algo que seja de interesse do grupo se seu analista est\u00e1 gerando o que n\u00e3o \u00e9 conceitual temos aqui produtividade nula. Simples assim.<\/p>\n<h2>A involu\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica<\/h2>\n<p><a href=\"https:\/\/devkico.itexto.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/Alphabet-Evolution.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-1343\" title=\"Alphabet-Evolution\" src=\"https:\/\/devkico.itexto.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/Alphabet-Evolution-256x300.jpg\" alt=\"\" width=\"256\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/devkico.itexto.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/Alphabet-Evolution-256x300.jpg 256w, https:\/\/devkico.itexto.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/Alphabet-Evolution.jpg 428w\" sizes=\"(max-width: 256px) 100vw, 256px\" \/><\/a>Hist\u00f3ricamente v\u00ea-se a evolu\u00e7\u00e3o do alfabeto partindo do pict\u00f3rico em dire\u00e7\u00e3o ao fon\u00e9tico. A raz\u00e3o por tr\u00e1s deste caminho \u00e9 simples: precis\u00e3o. O alfabeto eg\u00edpcio (veja imagem ao lado) era composto por hier\u00f3glifos que funcionavam na \u00e9poca de forma bastante prec\u00e1ria. O significado de cada um variava bastante de acordo com o contexto e interpreta\u00e7\u00e3o do leitor. Imagine escrever uma especifica\u00e7\u00e3o desta maneira.<\/p>\n<p>Quando o imag\u00e9tico assume o foco estamos voltando ao hier\u00f3glifo. O leitor possu\u00ed um espa\u00e7o interpretativo significativamente maior do que o fon\u00e9tico (por favor, n\u00e3o me venham com exemplos de especifica\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas ok?). V\u00eamos portanto uma involu\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica clara.<\/p>\n<h2>O diagrama que emburrece<\/h2>\n<p>Finalmente, minha teoria. Escrever bem requer pr\u00e1tica. Uma vez obtida a qualidade, esta se perde com a aus\u00eancia do exerc\u00edcio cont\u00ednuo. Se um analista de requisitos gera apenas conte\u00fado imag\u00e9tico no final das contas este acaba se &#8220;desalfabetizando&#8221;. A descri\u00e7\u00e3o verbal (conceitua\u00e7\u00e3o) cede seu lugar ao apontar. Pronto: temos um analfabeto funcional, e n\u00e3o mais algu\u00e9m cuja escrita \u00e9 o objeto de trabalho.<\/p>\n<h2>Ent\u00e3o diagramas s\u00e3o ruins? UML n\u00e3o presta Kico?<\/h2>\n<p>Diagramas s\u00e3o \u00f3timos quando est\u00e3o em seu lugar, ou seja, como estruturas acess\u00f3rias ao entendimento de um conceito. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es nas quais podem ser usadas como o foco? Sim, mas s\u00e3o raras: de imediato penso no diagrama de classes. Por\u00e9m, mesmo este isolado n\u00e3o \u00e9 de grande valor: como justificar a presen\u00e7a de um atributo sem antes um conceituar a seu respeito. Preciso descrever at\u00e9 os elementos mais \u00f3bvios? Na minha opini\u00e3o, sim. Um l\u00e9xico sempre \u00e9 bem vindo, especialmente se levarmos em considera\u00e7\u00e3o o fato de que o significado de uma palavra varia muito de acordo com o contexto em que esta \u00e9 empregada.<\/p>\n<h2>Concluindo<\/h2>\n<p>N\u00e3o se iluda achando que apenas com diagramas voc\u00ea est\u00e1 livre da escrita. S\u00f3 sabemos aquilo que conseguimos conceituar.<\/p>\n<p>PS: existe um texto muito bacana chamado &#8220;Death by UML fever&#8221; que talvez lhes interesse. Segue o <a href=\"http:\/\/www.ufpa.br\/cdesouza\/teaching\/es\/Death-by-UML-Fever.pdf\">link<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A humanidade levou mil\u00eanios para aperfei\u00e7oar a arte de transmiss\u00e3o do conhecimento. Infelizmente muitos preferem uma vis\u00e3o &#8220;retr\u00f4&#8221;. 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